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Educação antirracista para além do calendário: educadora de Foz transforma pesquisa e prática em formação para redes de ensino

Educadora leva pesquisa e experiência em sala de aula para formar profissionais e fortalecer práticas antirracistas nas escolas 

A implementação da educação para as relações étnico-raciais nas escolas brasileiras é uma determinação legal há mais de duas décadas. Na prática, porém, transformar a legislação em ações permanentes no cotidiano escolar ainda é um dos desafios enfrentados pelas redes de ensino.

É nesse cenário que se desenvolve o trabalho da professora, pesquisadora e educadora afrocentrada Adriana Menon, de Foz do Iguaçu, que tem dedicado sua trajetória profissional à construção de práticas pedagógicas voltadas à educação antirracista, especialmente na Educação Infantil, e à formação de profissionais da educação.

Para Adriana, trabalhar as relações étnico-raciais não pode significar apenas realizar atividades em datas específicas do calendário escolar.

“A educação antirracista precisa estar no cotidiano. Está nos livros que escolhemos, nas histórias que contamos, nas imagens que apresentamos às crianças e, principalmente, na maneira como a escola reconhece e intervém diante das situações de racismo.”


Professora da Educação Infantil, Adriana também é pesquisadora no Mestrado Profissional em Educação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Sua trajetória reúne experiência em sala de aula, produção de materiais pedagógicos, pesquisa acadêmica e formação de educadores.

Ao longo desse percurso, seu trabalho também recebeu reconhecimento por iniciativas desenvolvidas no campo educacional, entre elas o Prêmio Paulo Freire e o reconhecimento como Professora Destaque, além da Medalha Preta Roza, recebida em 2026.

Da experiência da escola para a formação de educadores

Parte importante do trabalho desenvolvido por Adriana nasceu das situações vivenciadas e observadas dentro da própria escola.

A educadora defende que muitos profissionais desejam desenvolver uma prática antirracista, mas ainda encontram dificuldades para identificar determinadas situações, saber como intervir e transformar os princípios da educação para as relações étnico-raciais em ações pedagógicas concretas.

Por isso, suas formações trabalham não apenas conceitos relacionados ao racismo estrutural e institucional, mas também situações que fazem parte do cotidiano das instituições educacionais.

Questões aparentemente simples podem revelar desafios importantes: como agir quando uma criança rejeita sua própria cor de pele? O que fazer diante de comentários sobre cabelos crespos? Como intervir quando uma brincadeira reproduz um estereótipo racial? Como escolher livros, brinquedos, imagens e referências que ampliem a representação das crianças negras?

Para Adriana, formar professores para responder a essas situações é tão importante quanto discutir os fundamentos teóricos da educação antirracista.

“Não basta dizer ao professor que ele precisa trabalhar a Lei 10.639. Precisamos discutir como isso chega à sala de aula e, principalmente, o que fazer quando o racismo aparece no cotidiano.”

Formação que precisa ser permanente

A Lei nº 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio e marcou um importante avanço na política educacional brasileira.

Mais de vinte anos depois, o desafio passa também pela efetivação dessa política nas práticas, nos currículos e na formação continuada dos profissionais da educação.

É justamente nessa direção que Adriana vem ampliando sua atuação, levando palestras e percursos formativos para educadores e redes de ensino.

A proposta é contribuir para que a educação antirracista deixe de depender exclusivamente da iniciativa individual de alguns professores e seja compreendida como parte do compromisso institucional da escola.

“Quando um professor sabe reconhecer, interromper e pedagogicamente trabalhar uma situação de racismo, nós deixamos de colocar toda a responsabilidade sobre a criança que sofreu aquela violência. A escola também precisa saber o que fazer.”

Pesquisa, prática e compromisso com a educação

Paralelamente ao trabalho de formação, Adriana desenvolve sua pesquisa de mestrado sobre trajetórias negras e políticas afirmativas na pós-graduação, ampliando a discussão sobre acesso, pertencimento e permanência da população negra nos espaços educacionais.

Embora sua pesquisa acadêmica alcance outra etapa da educação, existe um ponto que atravessa toda a sua trajetória: compreender como as instituições educacionais podem deixar de apenas receber pessoas negras e passar efetivamente a construir espaços nos quais elas possam se reconhecer, permanecer e pertencer.

Da Educação Infantil à universidade, a questão permanece.

Para Adriana Menon, é justamente por isso que a educação antirracista não pode ser compreendida como um projeto pontual.

“Estamos falando de formação humana. Quando uma criança negra consegue se reconhecer de maneira positiva dentro da escola e quando uma criança não negra aprende desde pequena a conviver com a diversidade sem reproduzir hierarquias raciais, estamos falando sobre a sociedade que queremos construir.”

Hoje, a educadora trabalha para ampliar esse diálogo com escolas, profissionais da educação e redes municipais de ensino, defendendo que a implementação da educação para as relações étnico-raciais seja permanente, planejada e incorporada às políticas de formação continuada.

Mais do que cumprir uma legislação, afirma Adriana, trata-se de garantir que nenhuma criança precise aprender, pelo silêncio dos adultos, que determinadas formas de violência podem ser naturalizadas dentro da escola.

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