Pediatra Dra. Marli Rio chama atenção para o lado invisível da maternidade e defende que a mulher também precisa ser vista, ouvida e acolhida após a chegada do bebê
Quando um bebê nasce, os primeiros cuidados e toda a atenção da família naturalmente se concentram nele. Mamadas, sono, cólicas, vacinas, peso e desenvolvimento passam a fazer parte da rotina. Mas existe outra pessoa que também acaba de nascer para uma nova realidade: a mãe.
É a partir dessa percepção que a pediatra Dra. Marli Rio utiliza uma expressão que considera fundamental para ampliar o olhar sobre a maternidade: “mãe recém-nascida”.
“Eu gosto de usar o termo ‘mãe recém-nascida’. Quando nasce um bebê, todo mundo fala sobre o recém-nascido, mas também nasce uma mãe. Um dia ela está com uma barriga e, no outro, está com um bebê no colo. Ela também passa por um período de desenvolvimento e aprendizado para lidar com todas as circunstâncias que estão acontecendo”, explica.
Segundo a especialista, reconhecer essa mulher como alguém que também precisa de cuidado é fundamental para que a maternidade não seja vivida de forma solitária.
O lado invisível da maternidade
A romantização da maternidade pode fazer com que sentimentos como exaustão, insegurança, solidão e sobrecarga sejam tratados como algo que simplesmente precisa ser suportado. Para muitas mulheres, porém, existe uma sensação ainda mais profunda: a de deixar de ser vista depois que o bebê chega.
“Esse lado invisível da maternidade é muito importante. Uma vez, uma participante de um podcast me disse: ‘Eu me senti tão representada quando você falou sobre isso. Eu lembro do dia em que estava me sentindo tão invisível que comecei a chorar e gritava: olha, aqui também bate um coração’. É exatamente isso que muitas mães sentem”, relata Marli.
A identificação, segundo ela, aparece também nos encontros e palestras que realiza.
“Toda vez que faço uma palestra sobre esse assunto, eu vejo as cabeças das mulheres fazendo que sim. Elas se reconhecem porque essa sensação de invisibilidade é muito mais comum do que imaginamos”, afirma.
Os números por trás da saúde mental materna
A preocupação não é apenas emocional. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que cerca de 13% das mulheres que acabaram de dar à luz apresentam algum transtorno mental, principalmente depressão. Em países de baixa e média renda, a estimativa chega a aproximadamente 20% das mulheres no período após o parto.
No Brasil, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), realizado com 23.896 mulheres, identificou sintomas de depressão pós-parto em 26,3% das entrevistadas, entre seis e 18 meses após o nascimento do bebê.
A depressão pós-parto pode envolver tristeza persistente, perda de interesse ou prazer, ansiedade, alterações do sono e do apetite, cansaço intenso, sentimentos de culpa e dificuldade de concentração. Por isso, a atenção à saúde emocional da mulher deve fazer parte do acompanhamento após o nascimento da criança.
Para Marli, isso significa ampliar a pergunta que tradicionalmente é feita nos primeiros meses de vida do bebê.
“Quando perguntamos se o bebê está mamando, dormindo e ganhando peso, também precisamos perguntar como está a mulher. Ela está conseguindo dormir? Está tendo ajuda? Está conseguindo falar sobre o que está sentindo? A mãe também precisa entrar nessa conversa sobre saúde”, destaca.
Quem cuida de quem cuida?
A chegada de um bebê modifica a rotina, os relacionamentos, o sono e a percepção que a mulher tem de si mesma. Por isso, uma rede de apoio efetiva pode fazer diferença nesse período.
A ajuda, entretanto, não precisa estar necessariamente relacionada a grandes gestos. Dividir tarefas, preparar uma refeição, cuidar do bebê por algum tempo ou simplesmente ouvir sem julgamentos também são formas de acolhimento.
“A mãe recém-nascida também precisa de tempo para aprender, se adaptar e entender essa nova identidade. Não podemos esperar que ela saiba imediatamente como lidar com todas as mudanças que a maternidade traz”, afirma a pediatra.
Nesse contexto, familiares e parceiros têm papel importante para evitar que toda a responsabilidade recaia sobre a mulher.
Cuidar da mãe também é cuidar da criança
Olhar para a saúde emocional materna não significa retirar a atenção do bebê. Pelo contrário: significa ampliar o cuidado para toda a família.
A própria OMS destaca que problemas de saúde mental durante a gestação e o período após o parto podem afetar o bem-estar da mulher e também trazer consequências para o desenvolvimento e os cuidados com a criança.
Por isso, sinais persistentes de sofrimento emocional não devem ser banalizados. A mulher pode e deve buscar ajuda profissional quando sentir que não está conseguindo lidar com a situação.
Para a Dra. Marli Rio, o principal é compreender que a maternidade também é um processo de construção.
“Não nasce apenas um bebê. Nasce também uma mãe. E essa mulher precisa ser vista, ouvida e cuidada. Quando falamos em saúde da criança, também precisamos olhar para a mulher que está por trás daquela mãe”, finaliza.
📈 Dados sobre saúde mental materna
* 13% das mulheres que acabaram de dar à luz apresentam algum transtorno mental, segundo estimativa da OMS.
* Em países de baixa e média renda, a proporção pode chegar a aproximadamente 20% no período após o parto.
* No Brasil, estudo da Fiocruz com 23.896 mulheres encontrou sintomas de depressão pós-parto em 26,3% das entrevistadas entre seis e 18 meses após o nascimento.
* A depressão pós-parto é uma condição de saúde que pode ser tratada e requer atenção profissional quando os sintomas são persistentes ou intensos.
Sobre a Dra. Marli Rio
Dra. Marli Rio é médica pediatra, com quase 30 anos de experiência no acompanhamento de crianças e famílias. Sua atuação também contempla a orientação e o acolhimento de mães durante a maternidade, com atenção ao vínculo familiar, à informação e ao cuidado integral.
Fonte dos dados: Organização Mundial da Saúde (OMS) e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
