Alerta do Itamaraty reforça os perigos enfrentados por brasileiros que decidem integrar forças armadas estrangeiras
A promessa de bons salários pode parecer tentadora para quem atravessa dificuldades financeiras ou busca uma oportunidade fora do país. Quando essa oferta envolve o alistamento em uma força militar estrangeira, porém, o cenário muda completamente. Em meio à guerra entre Rússia e Ucrânia, relatos sobre brasileiros que viajaram para a região para atuar no conflito chamam atenção para uma questão que vai muito além da remuneração: os riscos humanos, jurídicos e emocionais de participar de uma guerra longe de casa.
O próprio Ministério das Relações Exteriores mantém um alerta consular sobre a participação de brasileiros em conflitos armados em terceiros países. O Itamaraty afirma ter registrado casos de brasileiros que perderam a vida nesses conflitos e também de pessoas que enfrentaram dificuldades para interromper a participação nas forças estrangeiras depois do alistamento. O órgão recomenda fortemente que convites ou ofertas de trabalho ou participação em exércitos estrangeiros sejam recusados.
Outro ponto destacado pelo governo brasileiro é a limitação da assistência consular. Segundo o Itamaraty, os termos dos contratos firmados entre os brasileiros e as forças armadas estrangeiras podem restringir a atuação consular. O governo também esclarece que não existe obrigação do poder público de custear passagens ou o retorno de cidadãos brasileiros que estejam no exterior.
É nesse contexto que a ativista Sandra Campos chama atenção para aquilo que considera uma das faces menos discutidas do alistamento voluntário em zonas de conflito: a distância entre a expectativa criada por uma possível remuneração e a realidade de uma guerra. Para ela, antes de qualquer decisão, é fundamental compreender que não se trata de uma experiência profissional convencional, mas de uma escolha que pode envolver riscos extremos.
Entre a promessa financeira e a realidade do conflito
Na avaliação de Sandra, parte dos brasileiros pode ser atraída por relatos de remunerações elevadas e pela ideia de que determinadas funções seriam exercidas longe das áreas mais perigosas. O problema, segundo ela, está justamente na dificuldade de dimensionar os riscos antes da partida.
Contratos redigidos em outros idiomas, desconhecimento das leis locais, distância da família e dificuldades de comunicação podem tornar ainda mais complexa a situação de quem decide ingressar em uma força militar estrangeira.
A realidade de um conflito armado também está muito distante da representação frequentemente feita em vídeos e publicações nas redes sociais. Bombardeios, deslocamentos, condições climáticas adversas, possibilidade de ferimentos, morte, desaparecimento ou captura fazem parte dos riscos inerentes a uma zona de guerra.
O Itamaraty também alerta que brasileiros que se alistam em forças estrangeiras podem estar sujeitos a consequências jurídicas, inclusive em determinadas circunstâncias previstas pela legislação brasileira e por tratados internacionais dos quais o país é signatário.
Quando a guerra chega à família
As consequências de uma decisão desse tipo não ficam restritas a quem está no front. Para familiares no Brasil, o desaparecimento ou a morte de um parente em uma zona de conflito pode representar um processo doloroso e complexo, especialmente quando há dificuldades de comunicação, identificação ou localização.
O próprio Ministério das Relações Exteriores considera desaparecimentos, falecimentos, prisões e situações envolvendo risco à vida ou à segurança de brasileiros no exterior como casos que podem demandar assistência consular emergencial.
A Embaixada do Brasil em Kiev também mantém canais específicos para atendimento de brasileiros em situação de emergência na Ucrânia.
A história de Thalita do Valle
Entre os casos que ficaram conhecidos está o da brasileira Thalita do Valle, que morreu em 2022 enquanto atuava como voluntária junto às forças ucranianas. Segundo informações divulgadas à época, ela estava em um bunker na região de Kharkiv quando um incêndio provocado por um ataque resultou em sua morte. O ex-militar brasileiro Douglas Búrigo também morreu no mesmo episódio, depois de tentar auxiliar no resgate.
A história de Thalita tornou-se um dos exemplos lembrados quando se discute a participação de brasileiros no conflito. Mais do que uma narrativa de heroísmo, o caso evidencia o grau de exposição a que voluntários estrangeiros podem estar submetidos em uma guerra.
Embora a guerra russo-ucraniana seja o principal exemplo relacionado aos brasileiros que se alistaram voluntariamente em forças estrangeiras, a recomendação do governo brasileiro é mais ampla. O alerta consular do Itamaraty trata da participação de cidadãos brasileiros em conflitos armados em terceiros países e chama atenção para os riscos de vida, as possíveis dificuldades para deixar as forças estrangeiras e as limitações da assistência consular.
Para Sandra Campos, discutir o assunto é também uma forma de prevenção. A proposta, segundo ela, não é julgar quem tomou esse tipo de decisão, mas ampliar o acesso à informação antes que uma escolha motivada por dificuldades financeiras, desejo de mudança ou expectativa de remuneração se transforme em uma situação irreversível.
“Guerra não é uma oportunidade de trabalho comum. Antes de tomar uma decisão como essa, é preciso entender todos os riscos envolvidos e pensar também na família que ficará no Brasil”, defende a ativista.
A mensagem central é simples: nenhuma promessa financeira deve ser analisada isoladamente quando o preço potencial envolve a própria vida. Em uma zona de guerra, as consequências de uma decisão podem ser permanentes.
Sobre Sandra Campos
Sandra Campos transformou uma experiência pessoal de luto em uma atuação voltada ao acolhimento e à escuta. É ativista pela valorização da vida e criadora do projeto “Não te julgo, te ajudo!”, iniciativa que busca oferecer acolhimento e escuta amiga a pessoas que estejam passando por momentos difíceis.
Instagram: @sandracamposa_
